Dados de inflação mistos no Reino Unido pressionaram a libra esterlina. Embora vários componentes do relatório tenham sido positivos, os traders interpretaram o conjunto dos dados como desfavorável para a moeda britânica, levando o GBP/USD a recuar para a região de 1,34.
Apesar de a queda refletir, em grande medida, a força do dólar americano, o relatório também evidenciou a vulnerabilidade da libra e intensificou a pressão sobre o par. O mercado interpretou os números divulgados como sinais de estagflação.

Assim, de acordo com os dados divulgados, o índice de preços ao consumidor (CPI) cheio subiu 0,7% em março na comparação mensal (previsão: 0,6%). Trata-se do ritmo mensal mais forte desde abril do ano passado. Na base anual, o CPI cheio avançou conforme o esperado para 3,3% (o nível mais elevado desde dezembro passado).
No entanto, o núcleo do índice de preços ao consumidor, que exclui energia e alimentos, desacelerou inesperadamente para 3,1%, após ter subido para 3,2% no mês anterior; a maioria dos analistas esperava que o indicador permanecesse no nível de fevereiro.
Por outro lado, o índice de preços no varejo (RPI), utilizado por empregadores em negociações salariais, veio positivo. Após dois meses de queda (tendo recuado para 3,6% em fevereiro), o RPI subiu para 4,1% na comparação anual, acima da previsão de 3,9%.
Outros indicadores de inflação também aceleraram de forma relevante. Por exemplo, o PPI de insumos atingiu uma máxima de vários anos, subindo para 5,4% ao ano em março; para comparação, oscilou entre -1,3% e +1,1% ao longo do último ano. Os preços de produção (output) também aceleraram para 2,6%, após quatro meses consecutivos de desaceleração (estavam em 1,8% em fevereiro).
Como se pode observar, o resultado de março foi bastante misto. Talvez a principal surpresa tenha sido a desaceleração da inflação núcleo. Esse sinal indica ao mercado que o crescimento dos preços não decorre da procura doméstica, mas de choques externos, sobretudo da crise energética. Consequentemente, o Banco de Inglaterra tem motivos para considerar o pico de inflação de março como transitório. Em outras palavras, o CPI cheio dificilmente forçará uma mudança significativa na postura da autoridade monetária.
Pelo contrário, o relatório de ontem pode suavizar o tom do banco central, uma vez que a inflação importada pressiona o orçamento das famílias e limita o crescimento económico. Como mencionado, a alta da inflação cheia reflete principalmente o aumento dos preços de gasolina e diesel em meio ao conflito no Médio Oriente. O encarecimento dos combustíveis e da energia reduz diretamente o rendimento das famílias. Nesse contexto, o FMI já reduziu a sua previsão de crescimento do Reino Unido para 0,8%, face aos 1,3% anteriores.
Forma-se, assim, um cenário clássico de estagflação: inflação elevada combinada com desaceleração económica. Essa combinação aumenta o risco de a economia cair numa "armadilha de estagflação".
Diante dessas condições, o Banco de Inglaterra deverá quase certamente manter a política monetária inalterada e dificilmente adotará um tom mais agressivo, especialmente considerando a fraqueza persistente do mercado de trabalho do Reino Unido. Vale lembrar que, segundo dados divulgados recentemente, os pedidos iniciais de subsídio de desemprego subiram para 26,8 mil (previsão: 21,4 mil), marcando o quinto mês consecutivo de aumento. A taxa de desemprego caiu para 4,9%, mas essa queda foi impulsionada pela saída de pessoas da força de trabalho: a inatividade económica subiu para 21%. Além disso, fevereiro registou o crescimento salarial mais lento desde o final de 2020 (alta de apenas 3,8% com bónus e 3,6% sem bónus).
Assim, os dados macroeconómicos de inflação e do mercado de trabalho divulgados nesta semana não apoiaram a libra, apesar de alguns componentes positivos. O aumento da inflação cheia não está associado a otimismo económico — pelo contrário, eleva os riscos de recessão e limita a atuação do Banco de Inglaterra —, enquanto a queda do desemprego ocorre devido ao aumento da inatividade económica.
Do ponto de vista técnico, o GBP/USD está dentro da nuvem Kumo nos gráficos H4 e D1. No H4, o preço encontra-se entre as bandas média e inferior de Bollinger, sobre a linha Tenkan-sen, mas abaixo da Kijun-sen. No D1, o preço está entre as bandas média e superior de Bollinger e acima tanto da Tenkan-sen quanto da Kijun-sen. Tudo isso aponta para um cenário de incerteza persistente. Considere posições vendidas apenas após o par confirmar um fecho abaixo do suporte em 1,3480 (banda inferior de Bollinger no H4); nesse caso, o próximo alvo de queda seria 1,3410 (limite inferior da nuvem Kumo no D1). Compras no par parecem arriscadas diante dos riscos geopolíticos ainda elevados e em intensificação.