Após a reunião de hoje, o Banco Central Europeu (BCE) manteve inalterados todos os parâmetros de sua política monetária, confirmando o cenário-base amplamente esperado pelos mercados. No entanto, a comunicação do BCE esteve longe de ser dovish: a autoridade monetária não descartou novos apertos monetários e reconheceu que a recente alta dos preços da energia está intensificando os riscos para a inflação.
Apesar disso, o EUR/USD ficou sob forte pressão, recuando em direção ao nível de 1,1300 e testando o suporte em 1,1370, correspondente ao limite inferior das Bandas de Bollinger no gráfico diário (D1).
Vale destacar que esse movimento não foi impulsionado apenas pelo fortalecimento renovado do dólar americano (embora a moeda norte-americana tenha sido o principal fator por trás da queda), mas também pela fraqueza do euro, que deixou de receber do BCE o suporte esperado pelo mercado.

Por que razão o BCE não conseguiu apoiar o euro
Em primeiro lugar, o Conselho do BCE adotou, na prática, uma postura de espera (wait-and-see). Em seu comunicado, o Banco Central Europeu afirmou que o impacto total do choque nos preços da energia sobre a inflação ainda não se refletiu plenamente e que o nível de incerteza permanece "extremamente elevado".
Ao mesmo tempo, a presidente do BCE, Christine Lagarde, não correspondeu às expectativas da ala mais hawkish do mercado, evitando fornecer qualquer indicação direta sobre uma possível alta dos juros em setembro. Embora não tenha descartado um novo aperto monetário, reiterou diversas vezes que as futuras decisões serão tomadas "exclusivamente com base nos dados macroeconômicos que forem divulgados".
Essa formulação, já conhecida e amplamente utilizada pelo BCE, mostrou-se significativamente mais branda do que parte do mercado esperava, já que muitos investidores buscavam um sinal mais claro de uma mudança para uma postura monetária mais firme.
Em segundo lugar, o BCE reconheceu não apenas o aumento dos riscos inflacionários, mas também destacou a persistente fraqueza da economia da zona do euro. Isso sugere que o banco central continua dividido entre duas forças conflitantes: de um lado, a alta dos preços do petróleo e o risco de aceleração da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (CPI); de outro, o fraco crescimento econômico, que limita significativamente o espaço para novos apertos monetários.
Em terceiro lugar, as elevadas expectativas do mercado acabaram pesando contra os compradores de EUR/USD. No início de julho, após a mais recente escalada das tensões no Oriente Médio, muitos investidores passaram a precificar um cenário de política monetária mais agressiva por parte do BCE. No entanto, a reunião de hoje não foi suficientemente hawkish para justificar essas expectativas.
Como resultado, os mercados reagiram à decisão do BCE vendendo o euro, uma vez que as expectativas de uma postura mais hawkish já estavam incorporadas aos preços. Em outras palavras, a expectativa de uma política monetária mais rígida já havia sido precificada, enquanto a reunião do BCE não trouxe novos argumentos capazes de sustentar compras adicionais da moeda única.
Todos esses fatores pesaram sobre o euro. De um lado, os preços mais elevados da energia aumentam o risco de um período prolongado de estagflação. De outro, o mercado continua sem convicção de que o BCE esteja realmente disposto a iniciar uma nova fase de aperto monetário já no outono europeu.
Os investidores claramente buscavam sinais mais contundentes de uma possível alta dos juros em setembro. Em vez disso, o BCE voltou a enfatizar sua dependência dos próximos indicadores econômicos e ressaltou o elevado grau de incerteza. As expectativas do mercado eram altas demais e, muito provavelmente, esse foi o principal fator por trás da fraqueza do euro após a reunião de julho do BCE.
O dólar recupera o apoio devido ao aumento da aversão ao risco
No entanto, conforme mencionado anteriormente, o principal fator por trás da queda do EUR/USD hoje não foi o euro em si, mas o dólar americano, que voltou a se beneficiar do aumento da aversão ao risco.
A forte alta dos preços do petróleo alterou significativamente as expectativas para a inflação, fazendo com que o fator juros voltasse a favorecer o dólar. Durante a segunda metade do dia, o petróleo Brent avançou em direção aos US$ 100 por barril, em meio à escalada das tensões no Oriente Médio, aos ataques com mísseis dos houthis contra petroleiros sauditas e à persistência dos riscos relacionados ao Estreito de Ormuz.
Diante desse cenário, os participantes do mercado passaram a precificar a possibilidade de uma inflação mais persistente nos Estados Unidos, o que poderia levar o Federal Reserve (Fed) a manter as taxas de juros em níveis elevados por mais tempo e, eventualmente, considerar uma nova alta de juros no outono ou em dezembro.
Donald Trump também contribuiu para a mudança de sentimento ao afirmar hoje que está próximo de decidir se retomará as operações militares contra o Irã. Em entrevista ao Axios, o presidente dos Estados Unidos declarou que eventuais novos ataques contra alvos iranianos poderiam ser ainda mais amplos do que os realizados durante a Operação Epic Fury.
Sobre a possibilidade de uma solução diplomática, Trump afirmou que o Irã "quer negociar", mas acrescentou que o país ainda não está preparado para chegar a um acordo.
Perspectiva
Dessa forma, a reunião de julho do BCE não ofereceu suporte ao euro, enquanto o renovado aumento da aversão ao risco permitiu que o dólar se fortalecesse nos mercados financeiros.
A combinação desses fatores levou os vendedores de EUR/USD a testar o suporte em 1,1370, correspondente ao limite inferior das Bandas de Bollinger no gráfico diário. No entanto, os vendedores não conseguiram confirmar um rompimento abaixo desse nível, sinalizando que os traders continuam agindo com cautela.
Assim, posições vendidas só devem ser consideradas caso os vendedores consigam romper de forma decisiva essa zona de suporte. Se o nível continuar sendo preservado, o cenário mais provável é que o par retorne em direção à região de 1,1400, mais especificamente à faixa entre 1,1410 e 1,1470.