
Vamos começar pelos dados do CPI de maio. A característica mais relevante foi a desaceleração da inflação cheia. A taxa anual do índice de preços ao consumidor caiu para 4,0%, ante 4,3% em abril. O indicador desacelerou pelo segundo mês consecutivo, após atingir o pico de 4,6% em março. Vale destacar que esse componente do relatório veio abaixo das expectativas, já que o mercado previa uma aceleração da inflação para 4,4%, em meio à crise no Oriente Médio e à alta dos preços do petróleo (lembrando que o relatório cobre o mês de maio, quando o Estreito de Hormuz permaneceu totalmente bloqueado). Em outras palavras, os números divulgados ficaram significativamente abaixo das projeções.
O que isso significa? Principalmente, que o fator petróleo deixou de impulsionar a inflação. Em maio, os preços dos combustíveis recuaram, reduzindo a pressão dos custos de transporte. A desaceleração dos preços do transporte foi um dos principais fatores responsáveis pela queda da inflação cheia.
Para o Reserve Bank of Australia (RBA), esse é um sinal importante — possivelmente decisivo —, já que o choque nos preços da energia era considerado o principal risco por trás da aceleração da inflação observada no primeiro semestre.
Outro fator desfavorável para o dólar australiano é a queda das expectativas de inflação das famílias. Segundo a pesquisa mais recente do ANZ, a expectativa de inflação caiu de 7,0% para 6,3% em maio, enquanto a expectativa de longo prazo recuou para 5,8%. Esse dado é particularmente relevante para o RBA, pois expectativas menores de inflação costumam anteceder uma desaceleração da inflação efetiva.
Por outro lado, a inflação subjacente (trimmed mean) acelerou de forma inesperada em maio, passando de 3,4% para 3,6% na comparação anual, indicando que as pressões domésticas sobre os preços ainda persistem. Ainda assim, os mercados concentraram sua atenção na desaceleração da inflação cheia, que surpreendeu positivamente pelo segundo mês consecutivo. Esse conjunto de fatores reduz a probabilidade de novas altas de juros pelo RBA no curto prazo.
Os dados do mercado de trabalho divulgados hoje, referentes a maio, apenas reforçaram esse quadro fundamental mais amplo, apesar de um número principal aparentemente positivo: o emprego aumentou em 40 mil vagas (após a queda registrada em abril), enquanto a taxa de desemprego recuou de 4,5% para 4,4%.
No entanto, a composição do relatório revela tendências preocupantes.
Em primeiro lugar, a maior parte das novas vagas foi criada em empregos de meio período (part-time), enquanto o emprego em tempo integral (full-time) registrou apenas um crescimento modesto — uma divisão de aproximadamente 35 mil vagas contra apenas 5 mil. O mercado atribui maior importância à criação sustentada de empregos em tempo integral, já que um crescimento concentrado em vagas de meio período costuma indicar que as empresas permanecem relutantes em ampliar seus quadros permanentes. Esse é um dos sinais de um mercado de trabalho em gradual arrefecimento.
O segundo sinal negativo foi a queda de 1,1% no total de horas trabalhadas em relação ao mês anterior. Provavelmente, este é o componente mais fraco do relatório de maio e praticamente neutraliza o impacto positivo do número principal. Em termos formais, há mais pessoas empregadas, mas, na prática, a economia gerou menos horas efetivas de trabalho. Esse padrão aponta para uma desaceleração da atividade empresarial e para uma demanda mais fraca por mão de obra.
O terceiro sinal negativo foi a redução das vagas em aberto. Dados divulgados nesta semana mostram que o número de vagas caiu 2,1% tanto na comparação trimestral quanto na anual no segundo trimestre, com retrações particularmente expressivas nos setores financeiro e de serviços. Como as vagas em aberto são um indicador antecedente do mercado de trabalho, quedas nesse indicador costumam anteceder uma desaceleração das contratações e um aumento do desemprego nos meses seguintes.
Os dados de maio do mercado de trabalho devem ser analisados dentro de um contexto macroeconômico mais amplo. O PIB do primeiro trimestre foi fraco, a atividade do consumidor continua instável e os elevados custos de financiamento seguem pressionando a demanda doméstica. Nesse ambiente, mesmo uma deterioração moderada do mercado de trabalho pode rapidamente se transformar em um enfraquecimento mais acentuado do emprego.
Em resumo, as divulgações macroeconômicas desta semana reduziram substancialmente a probabilidade de novas altas de juros pelo RBA. Além disso, o mercado já começa a discutir a possibilidade de um afrouxamento da política monetária no segundo semestre. A divergência crescente entre as políticas monetárias do Fed e do RBA continua pressionando o AUD/USD e reforça a perspectiva de novas quedas.
Dito isso, a abertura de novas posições vendidas só parece prudente caso os vendedores consigam romper de forma convincente o suporte em 0,6890 (linha inferior das Bandas de Bollinger no gráfico diário), o que abriria espaço para o próximo suporte em 0,6850 (linha inferior das Bandas de Bollinger no gráfico semanal).